quarta-feira, 20 de abril de 2011

A proposta de Vygotsky: A Psicologia Sócio-Histórica

Lev Semenovitch Vygotsky (em russo Лев Семёнович Выготский, transliteração: Lev Semënovič Vygotskij, sendo o sobrenome também transliterado como Vigotski, Vygotski ou Vigotsky) (Orsha, 17 de Novembro de 1896, — Moscou, 11 de junho de 1934), foi um psicólogo bielo-russo. Pensador importante em sua área, foi pioneiro na noção de que o desenvolvimento intelectual das crianças ocorre em função das interações sociais e condições de vida. Veio a ser descoberto pelos meios acadêmicos ocidentais muitos anos após a sua morte, que ocorreu em 1934, por tuberculose, aos 37 anos.

Resumo
 
      Com a intenção de contribuir para a fundamentação do trabalho docente, o presente estudo tem por objetivo apresentar os principais pontos da psicologia sócio-histórica proposta por Vygotsky, um dos autores que na atualidade é uma das referências no embasamento do trabalho educacional. Para o atendimento do objetivo proposto, este estudo está dividido em três grandes partes. Na primeira, abordaremos o contexto histórico em que nasce o projeto de Vygotsky; na segunda, discorreremos sobre a fundamentação da teoria e na última parte trataremos da psicologia sócio-histórica.

1. INTRODUÇÃO

      Falar da proposta de Vygotsky implica considerar que seu trabalho é extremamente complexo, visto que sua elaboração tem por meta à constituição de um projeto de psicologia que pudesse analisar os problemas de aplicação prática do homem, em atendimento às necessidades emergentes da nação russa que acabava de nascer após a revolução socialista de 1917.
        Sua vasta produção acadêmica, aproximadamente 180 trabalhos, realizada num curto espaço de tempo, dez anos apenas, segundo Bonin (1996), envolve um importante esquema teórico complexo e integrado que, ao mesmo tempo, é aberto. Vygotsky, ao lado de seus colaboradores diretos, Luria e Leontiev, propõe um estudo sócio-genético do ser humano, assim como estabelece relações com as condições biológicas, principalmente nos aspectos neurológicos, na tentativa de evitar reducionismos e simplificações de qualquer espécie.
       Essa característica dos trabalhos de Vygotsky tem gerado, segundo Blanck (1996), diversas interpretações e aplicações, pois além de toda essa complexidade e diversidade de aspectos tratados, o autor, ao longo de seus trabalhos, foi modificando seus objetivos. Blanck destaca, ainda, que essas hesitações são fruto da ambição de seus projetos e da batalha que travava contra o tempo, devido a seu estado de saúde terminal. De qualquer forma, os seus seguidores entendem que sua teoria permeou um desenvolvimento coerente; já alguns autores, tais como o próprio Blanck, Veer, Kozulin, Valsiner e Wertch, descobrem na sua obra antagonismos irreconciliáveis. Davis (1993), por outro lado, não considera que os seus postulados constituam uma escola de psicologia, mas apenas um delineamento, ainda que geral, de uma psicologia de inspiração materialista-dialética.
       Ressalvadas tais características da obra do autor em questão, cumpre-nos esclarecer que trataremos neste espaço dos aspectos gerais de sua produção. Nesse sentido, antes de incursionarmos por suas idéias, faz-se necessário retomar o contexto histórico no qual essas idéias nasceram.

2. CONTEXTO EM QUE NASCE O PROJETO DE VYGOTSKY

         A revolução socialista de outubro de 1917 enfrentou nos primeiros anos um período tumultuado, marcado por uma guerra civil, pela intervenção estrangeira e por uma situação econômica sufocante que levou a nação russa à escassez de alimentos, penalizando sua população com um longo período de fome, vitimando muitas pessoas, inclusive Vygotsky, com tuberculose. Esta situação levou o novo regime a implantar um comunismo de guerra, o que culminou em 1921, sob a liderança de Lenin, com a consolidação do regime comunista no país.
     Vitoriosa a Revolução, a Rússia encontrava-se em estado lastimável. Tudo estava por construir. Um dos mais sérios problemas a enfrentar era o da educação. Consta que por aquela época o índice de analfabetismo girava em torno de 70%. Mesmo sob essas circunstâncias, porém os dirigentes que conduziam o novo estado desejavam promover uma renovação que não se limitava somente a reconstruir o país. O objetivo maior era construir, sob a tutela da teoria marxista, uma nova sociedade, o que implicaria, também, a construção de uma nova ciência. Nos dizeres de Rosa & Montero (1996),o conhecimento deveria ter sido um dos pilares dessa nova sociedade, considerando que, de acordo com a teoria marxista, ele evita a alienação no trabalho e liberta o homem. Mas, (...), a filosofia marxista contém uma epistemologia materialista e uma lógica dialética que requer o desenvolvimento de uma nova concepção de ciência. (p.70).
        Um dos grandes problemas enfrentados pelos pesquisadores que deveriam levar avante a construção da nova ciência foi justamente o fato dos limites impostos pelos dirigentes da nação, isto é, tomar por base, tão-somente, a filosofia marxista. O desafio era grande, principalmente, porque não havia unicidade, entre os marxistas russos, sobre a interpretação do materialismo. A controvérsia entre eles os dividia em duas correntes: uma mecanicista e outra dialética. Segundo os mecanicistas, a ciência é auto-suficiente e descobre suas próprias leis por meio da pesquisa; já os dialéticos defendiam um princípio exploratório aberto e não determinista, acreditando que os eventos são dependentes da ação humana, ou seja, a consciência é uma característica humana, e é ela que favorece a disposição para a construção dos eventos. Outro fator importante é a subida de Stalin ao poder, após a morte de Lenin em 1924. Stalin, por meio de sua interpretação pessoal das idéias de Lenin e do marxismo, promove um dos maiores expurgos da esquerda comunista, mas, ao mesmo tempo, implementou as políticas que esta linha defendia e, posteriormente, eliminou a facção direitista, passando a exercer um governo absolutista. O próximo passo foi a interferência na área educacional. Sob a alegação de que o desempenho das crianças na escola era deficiente, foi imposto um currículo fechado, e o sistema de projetos, adotados logo após a revolução, foi suprimido.
        O ponto culminante da interferência política ocorre na psicologia com a edição do decreto intitulado “Sobre as Perversões Pedológicas no Sistema de Comissariado do Povo para a Educação”. Este decreto baniu os testes psicológicos, assim como a psicologia, das áreas da educação e da indústria. Como conseqüências vários periódicos sobre psicologia deixaram de ser editados; cursos e institutos foram fechados; o ensino de psicologia ficou relegado ao plano de treinamento de professores nas faculdades, e muitos pesquisadores da área, inclusive Vygotsky, que já havia falecido, passaram a fazer parte de uma lista negra do poder que proibia, em todo o território nacional, as suas obras. Foi somente após a morte de Stalin, em 1953, de acordo com Rosa & Montero (1996), que os trabalhos de Vygotsky voltam a ser publicados, a partir de 1956. Esse foi o cenário no qual Vygotsky idealizou, desenvolveu e aplicou seu trabalho, mas não o viu ser banido e reintegrado.

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Referências

ABBAGNANO, N.(2000). Dicionário de filosofia.4.ed.,SP:Martins Fontes.
BLANCK, G. (1996). Vygotsky:o homem e sua causa.In: MOLL,L.C.Vygotsky e a educação: implicações pedagógicas a psicologia sócio-histórica. (pp. 31-35). Porto Alegre, RS: Artes Médicas.
BONIN, L.F.R. (1996). A teoria histórico cultural e condições biológicas. São Paulo (Brasil), Tese de Doutorado, Pontifícia Universidade Católica de São Paulo.
CASTORINA, J. A. (1998). Piaget e Vygotsky: novos argumentos para uma controvérsia.
(pp. 160-183). In Cadernos de Pesquisa. N. 105. São Paulo.
DAVIS, C. (1993). O construtivismo de Piaget e o Sócio-interacionismo de Vygotsky.In: Anais do Seminário Internacional de Alfabetização & Educação, 35-52. UNIJUI, RS.
DOISE, W. (1985). Le developpement social de l’intelligence. In:MUGNY, G. Psychologie sociale du developpement cognitif. Bern: Peter Lang.